
A perimenopausa representa um período de transição neuroendócrina marcado por flutuações hormonais significativas, especialmente nos níveis de estrogênio e progesterona. Embora frequentemente associada apenas a sintomas vasomotores e alterações menstruais, essa fase também envolve mudanças metabólicas relevantes que impactam inflamação sistêmica, composição corporal e funcionamento cerebral. A relação entre saúde metabólica na perimenopausa e saúde mental tem sido cada vez mais respaldada por evidências científicas.
Alterações metabólicas na perimenopausa
A redução progressiva e irregular do estrogênio influencia diretamente a distribuição de gordura corporal. Observa-se maior tendência ao acúmulo de gordura visceral, mesmo na ausência de aumento expressivo de peso total. A gordura visceral possui alta atividade inflamatória, liberando citocinas como IL-6 e TNF-alfa, associadas à inflamação crônica de baixo grau. Esse estado inflamatório pode contribuir para resistência insulínica e para alterações na sinalização cerebral.
O estrogênio exerce papel neuroprotetor. Ele modula plasticidade sináptica, regula neurotransmissores como serotonina e dopamina e participa da manutenção da função mitocondrial. Durante a perimenopausa, a oscilação estrogênica pode afetar memória, atenção e estabilidade emocional. Estudos indicam que mulheres nessa fase apresentam maior vulnerabilidade a sintomas depressivos e ansiosos, especialmente quando associados a distúrbios do sono.
A resistência insulínica tende a aumentar na transição menopausal. Alterações hormonais influenciam sensibilidade à insulina, metabolismo lipídico e composição corporal. A combinação entre gordura visceral, inflamação crônica e resistência insulínica cria ambiente metabólico que pode impactar função cognitiva e regulação emocional.
Estrogênio, inflamação, insulina e cognição
O eixo hipotálamo-hipófise-adrenal também sofre influência nesse período. Flutuações hormonais podem aumentar reatividade ao estresse, elevando níveis de cortisol. A exposição crônica ao cortisol associa-se a alterações no hipocampo e no córtex pré-frontal, regiões fundamentais para memória e funções executivas.
Outro componente central é o sono. A perimenopausa frequentemente envolve insônia, fragmentação do sono e sudorese noturna. O sono inadequado amplifica inflamação sistêmica, piora sensibilidade à insulina e compromete consolidação da memória. A interação entre sono, metabolismo e cognição torna-se particularmente relevante nessa fase.
Cuidados para saúde metabólica e mental
Do ponto de vista clínico, promover saúde metabólica na perimenopausa envolve abordagem integrada. Exercício físico regular melhora sensibilidade à insulina, reduz inflamação e estimula produção de BDNF, favorecendo neuroplasticidade. Estratégias nutricionais com menor carga inflamatória e adequada ingestão proteica auxiliam na preservação de massa magra e na estabilidade glicêmica.
A avaliação hormonal individualizada pode ser relevante, considerando riscos e benefícios da terapia hormonal quando indicada. Entretanto, intervenções em estilo de vida permanecem como base estruturante da saúde metabólica e mental nessa fase.
Compreender o impacto hormonal, inflamatório e cognitivo da perimenopausa permite abordagem preventiva e personalizada. A transição menopausal não deve ser vista apenas como fase sintomática, mas como janela de oportunidade para reorganização metabólica e promoção de saúde cerebral ao longo do envelhecimento.
Artigo escrito por Aline Seemund dos Reis
Psicóloga Clínica – CRP 12/27461
Pós-graduada em Neuropsicologia
Referências
Greendale, G. A., et al. (2020). Menopause and cognition. The Lancet Neurology.
Hotamisligil, G. S. (2006). Inflammation and metabolic disorders. Nature.
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