
A dor nociplástica é um conceito relativamente recente na medicina da dor e tem se tornado fundamental para compreender quadros de dor crônica em que não há lesão tecidual ativa ou dano estrutural identificável no sistema nervoso. O termo foi introduzido pela International Association for the Study of Pain (IASP) para descrever dor resultante de alterações na modulação nociceptiva, especialmente no sistema nervoso central. Esse conceito é particularmente relevante em condições como fibromialgia, síndrome do intestino irritável e algumas formas de cefaleia crônica.
Como funciona a dor nociplástica
Tradicionalmente, a dor era classificada como nociceptiva ou neuropática. A dor nociceptiva está associada a inflamação ou lesão periférica, como ocorre em traumas ou processos inflamatórios articulares. Já a dor neuropática decorre de lesão ou doença que afeta diretamente o sistema nervoso. Entretanto, muitos pacientes com dor crônica não apresentam inflamação ativa nem dano neural que justifique a intensidade e a persistência dos sintomas. É nesse contexto que a dor nociplástica se insere, oferecendo um modelo fisiopatológico baseado em alterações funcionais do processamento da dor.
Sensibilização central e alterações neuroquímicas
Na dor nociplástica, o sistema nervoso central passa a amplificar os sinais dolorosos. O mecanismo central envolvido é a sensibilização central, caracterizada por aumento da excitabilidade neuronal e redução da eficácia dos mecanismos inibitórios descendentes da dor. Estímulos que normalmente seriam percebidos como neutros ou pouco desconfortáveis passam a ser interpretados como intensamente dolorosos. Essa alteração não é imaginária nem exclusivamente emocional; trata-se de mudança funcional mensurável na dinâmica das redes neurais envolvidas na percepção dolorosa.
Estudos de neuroimagem funcional demonstram maior ativação de regiões como a ínsula, o córtex cingulado anterior e áreas somatossensoriais mesmo diante de estímulos de baixa intensidade. Observa-se também alteração na conectividade das redes moduladoras dependentes de serotonina e noradrenalina, comprometendo a capacidade do cérebro de regular o sinal nociceptivo. No campo neuroquímico, pesquisas apontam aumento de glutamato e substância P, além de redução de serotonina, noradrenalina e dopamina, alterações que contribuem para a amplificação da dor crônica e para sintomas associados como fadiga e alterações cognitivas.
Tratamento e modulação da dor crônica
Outro aspecto relevante envolve a interação entre estresse crônico, regulação neuroendócrina e dor. A desregulação do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal pode favorecer estados de hiperativação autonômica e contribuir para a manutenção da sensibilização central. Além disso, distúrbios do sono reduzem a eficiência dos mecanismos inibitórios descendentes, aumentando ainda mais a sensibilidade à dor. Assim, a dor nociplástica deve ser compreendida como resultado de alterações funcionais complexas no sistema nervoso, influenciadas por fatores biológicos, psicológicos e ambientais.
Compreender o que é dor nociplástica permite redefinir a abordagem clínica da dor crônica. Em vez de concentrar esforços exclusivamente na busca por inflamação periférica, torna-se possível direcionar o tratamento para estratégias que promovam modulação do sistema nervoso central, como exercício físico gradual, intervenções psicoterapêuticas baseadas em evidências, regulação do sono e, quando indicado, modulação farmacológica dos sistemas serotoninérgico e noradrenérgico. A consolidação desse conceito representa um avanço na compreensão científica da dor crônica e contribui para uma abordagem mais precisa e integrada do cuidado.
Artigo escrito por Aline Seemund dos Reis
Psicóloga Clínica – CRP 12/27461
Pós-graduada em Neuropsicologia
Referências
IASP (2017/2021). Classification of chronic pain for ICD-11.
Ansiedade
Depressão
TDAH
Transtornos de humor
Autoestima
Autoconhecimento
Relacionamentos
Maternidade
Transições de vida
Transições de carreira








