
A relação entre fibromialgia e perimenopausa tem sido cada vez mais discutida na literatura científica, especialmente devido à maior prevalência de dor crônica em mulheres durante a transição hormonal. A fibromialgia, compreendida como modelo de dor nociplástica, envolve alterações no processamento central da dor, com sensibilização central persistente. Nesse contexto, as oscilações hormonais características da perimenopausa podem atuar como moduladoras relevantes da intensidade sintomática.
Hormônios e modulação da dor na perimenopausa
A perimenopausa é marcada por flutuações nos níveis de estrogênio e progesterona, hormônios que exercem influência direta sobre sistemas neurotransmissores envolvidos na modulação da dor, como serotonina, noradrenalina e dopamina. O estrogênio, em especial, possui papel regulador sobre circuitos corticais e subcorticais relacionados à percepção dolorosa. Reduções ou oscilações abruptas desse hormônio podem comprometer a eficiência dos mecanismos inibitórios descendentes da dor.
Estudos indicam que o estrogênio também participa da regulação do sistema glutamatérgico e da plasticidade sináptica. Durante a perimenopausa, alterações nessa modulação podem favorecer estados de hiperexcitabilidade neuronal, contribuindo para amplificação do sinal doloroso em mulheres com predisposição à sensibilização central.
Sono, estresse e sensibilização central
Além das alterações neuroquímicas, a transição menopausal está associada a distúrbios do sono, ondas de calor, alterações de humor e maior vulnerabilidade ao estresse. A fragmentação do sono, por sua vez, reduz a eficiência da modulação descendente da dor, perpetuando o ciclo de amplificação dolorosa. O eixo hipotálamo-hipófise-adrenal também pode sofrer alterações durante esse período, favorecendo estados de hiperativação autonômica que impactam diretamente a percepção da dor crônica.
É importante compreender que a perimenopausa não causa fibromialgia isoladamente, mas pode atuar como fator modulador em mulheres com vulnerabilidade prévia à dor nociplástica. A interação entre alterações hormonais, estresse acumulado ao longo da vida e predisposição neurobiológica pode explicar a intensificação de sintomas nesse período.
Abordagem clínica integrada
Do ponto de vista clínico, essa compreensão amplia a abordagem terapêutica. Estratégias que integram regulação do sono, exercício físico gradual, intervenções psicoterapêuticas baseadas em evidências e avaliação cuidadosa da saúde hormonal podem contribuir para melhor controle da dor crônica durante a transição menopausal.
A análise integrada entre fibromialgia e perimenopausa reforça a necessidade de abordagem individualizada e fundamentada em mecanismos fisiológicos. A dor crônica, nesse cenário, emerge da interação dinâmica entre sistemas hormonais, neuroquímicos e regulatórios centrais.
Artigo escrito por Aline Seemund dos Reis
Psicóloga Clínica – CRP 12/27461
Pós-graduada em Neuropsicologia
Referências
Clauw, D. J. (2014). Fibromyalgia: A clinical review. JAMA.
Mogil, J. S. (2012). Sex differences in pain and pain inhibition. Pain.
IASP (2017/2021). Classification of chronic pain for ICD-11.
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